UM LEGALISTA NO ÉDEN

Um Legalista foi meu primeiro livro publicado.
A primeira edição foi feita em 1995, com impressão de mil livros.
A segunda edição foi feita pela editora Candeia de São Paulo. Foram feitos três mil exemplares. Todos vendidos. Não tenho nem uma cópia dessa edição mais. Nem consigo comprar nos sebos.
Agora a terceira edição. Está com uma nova capa. As outras capas eram legais, mas não eram tão expressivas como essa.
Essa nova edição está sendo vendido na Amazon, pode ser acessado neste link https://www.amazon.com.br/s/ref=nb_sb_noss?__mk_pt_BR=%C3%85M%C3%85%C5%BD%C3%95%C3%91&url=search-alias%3Daps&field-keywords=um+legalista+no+%C3%A9den



O ministério pastoral feminino na Bíblia.

Não quero aqui tecer comentários sobre a luta das feministas cristãs em busca da ordenação pastoral. Não quero expor aqui argumentos para explicar que a mulher na Bíblia é vista como uma figura subalterna. Não quero mostrar aqui que Deus usou Débora para ser juíza do povo de Israel. Não quero dizer aqui que o meio o qual o Altissimo usou para trazer seu filho, Salvador,  Senhor, Libertador do império do mal foi uma mulher. Deus poderia ter usado uma baleia, uma pedra, até uma sucuri, mas na Bílbia diz que ele usou uma mulher. Bendita Maria, mãe de Jesus. Não quero dizer aqui que nos mais de 100 anos que minha família é presbiteriana, as mulheres foram sempre os membros mais ativos e atuantes na vida da comunidade e da igreja. Não quero dizer aqui que a igreja presbiteriana com o declínio das suas vocações e de candidatos ao pastorado enfrentará o mesmo problema que a Igreja Católica: falta de padres. Não quero aqui dizer que em nenhum lugar do Novo Testamento, nem do Velho Deus condena o ministério feminino, que o Espirito Santo está impedido de usar os dons pastorais em mulheres. Não.
Só quero aqui usar um exemplo, um exemplo simples, que pode ser interpretado de várias formas diferentes, é o texto que Paulo usou em Romanos 16, 7: "Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e meus companheiros de prisão, os quais se distinguiram entre os apostolos e que foram antes de mim em Cristo." Júnias é mulher, sim essa criatura que Paulo diz que foi sua companheira de prisão, parente e que se destacou entre os apóstolos. Ela era apóstolo(a) era uma mulher.
Uma, qualquer, religião que não dá a mulher o mesmo espaço que o  homem, que a mesma não pode exercer o mesmo ofício que o homem, ofende a imagem e semelhança de Deus e rejeita a ação do Espírito Santo sobre a Igreja. Está fadada à ruína.
Se Deus fez a irmã Júnias de apóstolo qual é o calvinista que vai impedir que ela não seja?

Rogério Rezende

U2 - Amazing Grace/Where the streets have no name (traduzido em pt)

Sofrimento criativo - Por Paul Tournier


Existem pessoas que constantemente se preocupam se terão coragem de enfrentar isto ou aquilo quando envelhecerem: uma doença devastadora, incertezas ou a morte do cônjuge. Procuro sempre reafirmar a elas que enquanto a provação não está lá, a coragem também não estará. E elas serão, provavelmente, aquelas pessoas a enfrentar as provações que vierem com mais coragem.
Diversas vezes fiquei maravilhado com os recursos de coragem que as pessoas ansiosas e preocupadas revelam quando têm que enfrentar a provação real e não o fantasma da provação que povoa seu imaginário. Há mais a ser dito. Existe uma alegria extraordinária que irradia de muitos que sofrem sérias enfermidades, o que contrasta de forma surpreendente com a morosidade de tantas pessoas saudáveis que encontramos no ônibus. Qual é a explicação? Penso que isso ocorre devido ao fato de que suas vidas demandam coragem permanente, um constante expandir da coragem, e como a coragem pertence à economia espiritual, quanto mais a gastamos, mais a temos.
É como uma corrente que os atravessa e produz alegria, a alegria da vitória sobre seu destino. Esta alegria da vitória é algo que encontramos em todos aqueles que completam grandes tarefas, como quem escala até o topo de uma montanha, como os campeões de esportes, mesmo que entrem em colapso, com lágrimas de exaustão no pódio. Além disso, para uma pessoa seriamente comprometida e privada de algo, não é a vitória de um dia e sim a vitória de todo dia. De onde vem o prazer em viver? O prazer se origina mais dos desafios do que das conquistas em si.
A primeira vez que falei sobre o tema da privação foi em um encontro da Associação das Mães Solteiras. A audiência consistia de mulheres que eram viúvas, divorciadas, solteiras ou abandonadas por seus maridos, todas responsáveis pela criação de seus filhos sem a presença dos pais. O que eu queria dizer a elas sobre órfãos poderia ser um encorajamento para a vida de cada uma. Mas não precisavam de encorajamento. Fiquei espantado com a alegria que reinava entre elas. Refleti que elas também precisavam ampliar a coragem em cada dia de suas vidas, dias difíceis, e o segredo da sua alegria impressionante era a corrente de energia espiritual que as atravessava. Mas também havia o fenômeno da comunicação desta coragem, passada de uma para outra, cada percepção da coragem na vida da outra e a contribuição da própria coragem para a vida das demais. Era como uma multiplicação de reflexos em uma sala de espelhos.
A pessoa mais encorajada fui eu. Saí daquele encontro cheio de alegria. Quando a organizadora do evento entregou flores para meu jardim eu senti que ela merecia mais do que eu. Era claro que nada nos inunda de coragem mais do que um homem, mulher ou criança que demonstra coragem exemplar na adversidade. É bem mais efetivo que uma exortação. Parece-me que o mais importante a enfatizar é esta contagiante qualidade de coragem. Vejo tantas pessoas boas que genuinamente tentam resistir a todos os tipos de tentação através da fé em seus ideais, mas que se sentem frágeis perante o contagiante medo do mal, da violência, da injustiça e das mentiras que atacam o mundo. O que podem fazer a respeito disto? Sua obediência diária é valiosa, mas não parece mais do que uma gota perdida em um oceano em meio à tempestade. A bondade contagiante não é tão óbvia. No entanto, uma coisa que não pode ser negligenciada é o efeito contagiante de uma obediência excepcionalmente corajosa.
Na realidade, não penso que devemos exortar pessoas para que sejam corajosas. Para ser frutífera, a coragem deve vir espontaneamente, em resposta a um chamado interior. Consigo enumerar diversas mulheres que tiveram a coragem de desistir da idéia do divórcio em circunstâncias em que o divórcio seria até justificável. Eu não teria o papel de encorajá-las porque eram elas e não eu, que enfrentavam o sofrimento imposto por sua decisão. Jesus nos coloca em alerta sobre colocar sobre os outros, fardos que nós mesmos não carregaríamos (Lucas 11:46). Sempre observei que, quando é Deus quem nos chama para tomar este tipo de decisão, Ele também nos fortalece para suportar as conseqüências.
Paul Tournier
(http://cristianismohoje.com.br/ch/sofrimento-criativo/)

Guarapari: fim de outubro




Quando criança, com uns oito anos ou nove anos, meu tio Oliveira levou-nos para conhecer Guarapari. Lembro-me que diante da praia de Areia Preta imaginar que aquilo era pó de carvão com minério triturado. Idéia de criança.
Sempre fui encantado por esta praia, confesso. E domingo passado, voltei no tempo. 

A tarde na cidade estava esplendorosa. O sol alaranjado morrendo atrás dos montes, seus raios
dourados refletiam nas águas do canal; os barcos dançavam agitados pelo balanço das ondas, o mar e a brisa criavam uma atmosfera mítica.
A Praia das Castanheiras parecia uma varanda, uma beleza de casa limpa. As crianças andavam de skate, um casal filmava a praia, duas senhoras tiravm fotos das castanheiras, uma jovem sentada num banco deixava um livro ao lado e olhava contemplativa o mar, a leitura do mar era mais interessante. E era. 
O vento marinho estava muito mais forte que o vento do canal. E mais frio. Silêncio e alegria enchiam aquele fim de tarde. Uma tarde feliz.

Gorducho, o Magnífico.

Dizem que os gatos são animais míticos, não sei responder. Acho que são imprevisíveis. Um dia estava nervoso com alguma situação, muito estressado, sentado nos degraus da escada de casa, olhava para o telhado sob o céu noturno. Subitamente, percebi gorducho deitado serenamente aos meus pés. Percebi ali o quanto aquele gato era singular, para não dizer, especial.
Gorducho não era um nome apropriado para ele, mas foi dado pela pequena Ana.
Mas com muito lamento já não é mais, foi morto com "chumbim", veneno para ratos, agora estava vingado duas dezenas de ratos, uma dúzia de rolinhas, 15 pardais, três morcegos e um espírito de porco, digo, imbecil.
Era um siamês: imponente, elegante, de olhar altivo, direto, que causava respeito e temor nos outros gatos. Belo com seus pelos sedosos marrons, suas patas negras poderosas, unhas afiadas e mortais nas caçadas noturnas.
Era esse o seu ofício na vida: ser belo e selvagem, mesmo domesticado. Carismático pela simplicidade dos gestos e da forma como liderava todos os gatos da rua.
Na tarde do sábado ele entrou na sala, eu via as olimpíadas. Ele chegou perto do sofá, brinquei com ele, passei a mão no seu pelo denso. Ele esticou as garras e cravou no sofá, parecia sentir a barriga. Os olhos lacrimejavam. Estranhei quando ele tentou um arroto muito forte como se estivesse engasgado. Depois de uns minutos subia para a casa da minha sobrinha, lá deu-se o seu fim. Os olhos azuis e serenos se tornaram vermelhos lacrimejantes. Do canto da boca uma espuma esbranquiçada. Ele não ficava em pé, ninguém sabia, o que tinha ocorrido. Gorducho morreu em minutos. Morreu resignado e elegante.
Foi enterrado no quintal e já faz duas semanas que todas as noites um gato vem, no lugar onde foi enterrado, chama por ele. Um chamado melancólico e sofrido. Tão sofrido que sinto uma dor na alma.
Dias desses Aninha, a dona de Gorducho me disse:
- Tio, você tem saudades do Gorducho?
Respondi com balançando a cabeça. Na garganta tinha um nó de lágrima.

Lewis une o fantástico com a fé cristã

por SHIN OLIVA SUZUKI
da Folha de S.Paulo
Parece a receita dos sonhos de Hollywood: juntar fantasia e cristianismo –os temas mais quentes na capital do cinema atualmente– embalados em uma história chancelada por milhões de leitores. Vem aí “A Paixão do Hobbit”? Não se chegará a tal absurdo, mas elementos do controverso filme de Mel Gibson e de “O Senhor dos Anéis” estarão na aposta da Disney para recuperar o encanto perdido.
A companhia anunciou no início deste mês a adaptação cinematográfica da série infantil de fantasia “As Crônicas de Nárnia”, de autoria do escritor e pensador cristão, nascido na Irlanda do Norte, C.S. Lewis (1898-1963), amigo próximo de J.R.R. Tolkien quando freqüentavam a Universidade de Oxford.
O primeiro filme, produzido em conjunto com a Walden Media, irá consumir US$ 100 milhões em filmagens na Nova Zelândia e será baseado no livro “The Lion, the Witch and the Wardrobe” (“O Leão, a Bruxa e o Guarda-Roupa”, lançado no Brasil, como todas as “Crônicas”, pela editora Martins Fontes). A direção ficará a cargo de Andrew Adamson, de “Shrek”, e, para o papel principal, Nicole Kidman vem sendo cogitada. A previsão é que o filme estréie no Natal do ano que vem.
A empreitada ganhou importância depois que a Disney recusou a produção da trilogia “O Senhor dos Anéis” (quase US$ 3 bilhões só de bilheteria, 17 Oscar no total) e rompeu a parceira com a Pixar, responsável por uma seqüência bem-sucedida de animações digitais (de “Toy Story” a “Procurando Nemo”). Acionistas da empresa não gostaram dos recentes passos e forçaram a retirada de parte do poder do presidente-executivo, Michael Eisner.
A fé para afastar de vez a maré baixa foi depositada em uma história desconhecida do público brasileiro, mas dona de larga base de admiradores entre os leitores de língua inglesa –85 milhões de livros foram vendidos desde os anos 50, quando a série foi escrita.
“As Crônicas de Nárnia” se passam em um mundo fantástico povoado por não tão inusuais (para um mundo fantástico) bruxas, anões e animais falantes. No entanto, o diferencial na obra de Lewis está na estrutura formada em torno da moral cristã.
“A série foi a primeira obra de fantasia teológica a ser escrita, o que levou até a revista ‘Time’ a fazer uma reportagem de capa com Lewis. Havia um gênero novo à vista”, explicou à Folha de S.Paulo Stanley Mattson, presidente da C.S. Lewis Foundation, entidade que promove seminários Estados Unidos afora para debater o trabalho do autor norte-irlandês –em cujas platéias se sentam mais acadêmicos do que a própria criançada.
O personagem principal da série é o leão Aslan –uma alegoria de Jesus Cristo construída por Lewis–, que surge sempre quando o mundo de Nárnia se encontra ameaçado. Em “O Leão, a Bruxa…”, o messias de juba salva um grupo de quatro crianças da vilã Feiticeira Branca, não, porém, sem ensinar a importância do caminho moral que será seguido e do arrependimento de seus erros.
Douglas Gresham, filho adotivo de Lewis e que trabalhará como consultor no filme da Disney, afirmou, por e-mail, que a mensagem por trás das “Crônicas” é a de que “Deus sempre triunfa sobre o mal e, ocorra o que ocorrer, tudo depende do lado que vamos escolher estar no meio dessa guerra”.
Mas os livros de Lewis vêm cativando leitores de variados credos graças, ao que Stanley Mattson chama, da “acessibilidade de seu texto”. “Ele queria partilhar com o leitor o que via e compreendia. Lewis era um homem de grande formação intelectual, mas se comunicava de uma maneira que todos podiam entender.”
“Poderia dizer que a população inteira do mundo é uma audiência em potencial para ele”, diz Gresham. A Disney está mal das pernas, mas não é boba, não.

Relembrando Manoel

Tem gente que tem orgulho do clero, de líderes eclesiásticos famosos, dos grande "homens de Deus". Eu, ao contrário, me orgulho dos leigos. Tenho orgulho do meu avô. O bom e velho Manoel. Ele foi um ótimo avô, eu, péssimo neto. Vivia roubando frutas no pomar do seu quintal sem sua permissão, ou mexendo nos seus livros na biblioteca, que ele tinha tanto zêlo, ou profanando seu sagrado silêncio correndo atrás do Peri (seu cachorro pequenez). Peri era um tanto parecido com ele. Não gostava de chacotas, quando ficava sobre o barranco esperando eu jogar o pedaço de pau e eu ameaçando jogar não jogando,depois  rindo de tê-lo enganado, Peri mostrava os dentes e latia, como querendo dizer: joga logo essa droga!
Bons tempos, antes de encontrar algumas pessoas no céu, espero encontrar primeiro o Peri.
No quintal sagrado da sua casa, quintal exageradamente varido e limpo, pela vassoura de mato da minha avó, nasceu a igreja presbiteriana do bairro. Em Campo Grande no início da década de 60, havia a igreja católica e mais três igrejas protestantes. Foi ali debaixo da sombra do coqueiro e abacateiro que nasceu aquela comunidade de calvinistas: gente pobre, mas honesta; gente simples mas honrada; gente simpática e admirada pela maioria esmagadora de honrados católicos. Hoje o bairro é outro, como é outro o meio evangélico.
Quando seu vizinho, o senhor Eutimio, se converteu, eles juntaram uma coisa em comum além da amizade - a música. Meu avó tocava vários instrumentos: clarinete, flauta transversal, cavaquinho, bandolin, violão, sanfona. O senhor Eutimio também mas gostava do Sax. Os dois se reuniam, depois da janta, na alfaiataria do meu avô e ali eles, fechado naquela casa de madeira, como uma caixa acústica, onde havia uma norma de não incomodar, tocavam as músicas do hinário da igreja: Quando os santos marcharem (que o Tears for Fears adoravam), Maravilhosa Graça (a famosa Amazing Grace), O Mercado Está Vazio (mais apocalíptica) e várias outras com melodia que arrebatavam. Sempre havia os arranjos: o Sax do senhor Eutimio deixava se levar pelo Espírito e chegava ao trono do rei. Noutro momento era o clarinete levando os anjos ao sétimo céu.
Depois se despediam com solenes "boa noite" até  voltarem a se reunir quando a música e o Senhor os chamava para se alegrar. Aquilo é que era um culto sagrado. Muitos se tornaram músicos, crentes, somente ouvindo aquelas músicas. Meu avô evangelizava a toa, a música e sua vida falava mais alto que suas sábias palavras.
Eu era apenas um ouvinte da música celestial daqueles dois titãs.
Um moleque que não se perdeu, porque perdeu-se na música de Vô Manoel. 

O Jardim Secreto de Oliver Patterson

Eu e um amigo começamos a trabalhar como professores num colégio agricola, em Chapada dos Guimarães, no início da década de 90. A escola tinha quase mil hectares, uma parte era reserva ambiental.
Uma tarde, após as aulas da manhã, andávamos conhecendo a escola. Passamos por um monjolinho de ferro, contrastava com os tijolos avermelhados do casarão dos estudantes; contornamos a esquerda e vimos a piscina rústica, de cimento grosso, mergulho de cabeça nem pensar. Do outro lado da estrada, a represa de água para abastecer a escola. Mata. Terra vermelha. O que viemos fazer aqui? Kierkegaarden.  Camus. Guimarães Rosa: "Amigo é só isto, alguém com quem gostamos de conversar..."
A casa de Kazuco, uma descendente japonesa, ficava a esqueda e mata antes e depois.
" O marido de Kazuco disse que nessa represa (que havíamos passsado) tem muitas rãs, os alunos vem à noite pega-las usando lanterna."
"Rã frita é uma delícia." - Falei.
"Precisamos descobrir como se pega."
"Acho que usam um tridente de ferro. Jogam a lanterna nos olhos do bicho, ele fica meio cego e aí arremessam o tridente nas costas delas. Batata. Não falha."
E continuavamos andando em direção a cidade na estrada velha e abandonada. A rota 66 de Chapada dos Guimarães. A estrada por onde passou a Coluna Prestes no tempo do tenentismo. Olhava os campos extensos e ralos do lado direito da estrada. Era ali que os cavaleiros de Prestes acamparam. Passaram alguns dias descansando da longa marcha.
Como uma estrada tinha, praticamente, separado matas tão singulares? Era  densa floresta amazônica, de um lado e a vegetação de Serrado, do outro. Na parte do cerrado, via uma concentração de árvores baixas, com alguns pés de buritis, onde diziam que ficava uma nascente.
Passamos por um córrego que atravessava a estrada. Não sabia se era permanente ou produto das intensas chuvas do verão.
Um pouco a frente, no meio da mata que achavamos fechada, difícil de entrar até para uma caçada de perdiz, vimos uma estrada, abandonada, a mata tomava conta dela. Entramos pela estrada, não fomos mais que vinte metros a frente, vimos uma coisa surreal, em plena mata, de árvores altas: um jardim. O lugar era fechado por uma cerca de arames e na parte baixa, uma saia de latas de óleo, formando uma barreira para animais, as linhas de arames estavam tão próximas que o dono gastou o triplo do que seria necessário para um cercado seguro. Havia ao lado do portão, duas barras de ferro, uma grande e pesada e outra pequena, mais leve. Bater a pequena na grande era a campainha. Batemos e esperamos. Ninguém apareceu. Batemos e esperamos. E nada. Observamos que havia uma casa de um amarelo, semelhante as flores de carvalho do sul dos EUA. Mas o que nos impressionava eram os pés de mexirica carregados, com frutas enormes e maduras, pés de manga, laranja bahia, laranja lima, lima, limão, pés de abacate (com frutas caídas), mamões, pés de abóboras, pés de chuchu subindo pelo telhado da casa, pés de pimenta malagueta, etc.Tudo produzindo a toda. Fiquei pasmo,  deramos em algum lugar mágico. As abelhas voavam em grande zurrada e não se importavam conosco, mergulhavam em mangas maduras caídas no chão. E se embriagavam com o doce das frutas.
Achando estar abandonado, entramos, viramos crianças, pegamos umas mixiricas. Ao mesmo tempo olhavamos em volta para ver as outras novidades. Duas crianças num pomar. Farra de sabores.
Lá pela decima fruta, ouvimos um:
"Opâ".
Olhamos em volta e não vimos ninguém.
"Boa tarde." - Respondemos sem ver quem falara.
Um homem franzino, baixo, trazia um carrinho de madeira com espigas de milho e ferramentas. Vestia calça tergal, camisa branca, surrada, cabelos brancos, olhava para o chão. Devia ser de ira.
"O que vocês estão fazendo?"
"Bem achamos que...que o lugar estava abandonado e entramos para conhecer." - Marcos justificou nosso crime apelando para o desconhecimento.
"E pegar frutas sem autorização?"
"A gente bateu na campainha, senhor, e ninguém veio nos atender." - Respondi.
"Quem são os senhores?"
"Professores. Os novos professores deste ano."
"Deviam dar o exemplo." - Bateu o prego da ética em nossas mãos sujas de caldo de tangerina.
"Mas a gente, chamou várias vezes e não apareceu ninguém, desculpe, mas se soubessemos que o senhor estava aqui, não teríamos entrado sem permissão." - Disse meu amigo tentando convencer o velho.
"É eu não estava mesmo aqui, estava no milharal da escola trabalhando."
Nos entreolhamos aliviados. Acho que se convenceu.
"Se são professores da escola, vamos entrar para tomar café comigo." - O tempo e o humor do homem já tinha mudado. Mudou a atmosfera. Atirei o resto da tangerina na direção da mata.
Na casa ao lado da oficina, carcaças de carros antigos, um ford velhíssimo, um trator, veículos de mais de quarenta anos. Na parede uma coleção de chaves, ferramentas, tudo bem organizado e abaixo delas a descrição das mesmas. Estávamos impressionados com aquela organização dos objetos, outra surpresa, depois de encontrar um jardim no meio da mata. O interior da casa era singelo: sala com um sofá e uma cristaleira, com algumas louças; quarto com duas camas de solteiro; cozinha com mesa simples, um fogão a lenha num canto, janelas para toda extensão do jardim. Não havia eletrodomésticos: não vi geladeira, televisão, só um rádio para ouvir músicas sertanejas.
Tudo era manual, mesmo tendo eletricidade no local.
O velho abriu a torneira que trazia água por meiode uma calha de bambu, encheu um bule de água, numa outra panela com água e um punhado de sal colocou as espigas de milho, pôs na chapa do fogão, acrescentou dois pedaços secos de lenha para alimentar o fogo.
"Como é o nome dos senhores?" - Perguntou o homem.
"Rogério." - Respondi
" Marcos." - Nome fictício do meu amigo, na época, hoje, não temos a mesma amizade. O homem se apresentou:
"João, seu servo." - Aquilo foi chocante, parecia uma expressão bíblica, o homem adquiriu uma humildade incomensurada com aquela expressão: "seu servo", no singular. Servo meu ou do meu amigo? Pela expressão de sublimidade, pureza, sinceridade, o aço que usamos no dia a dia com para nos defender do mundo,  derreteu-se.
"Que é isso? ninguém é servo de ninguém, se formos servos, seremos só do Altíssimo." - Busquei afirmar nossa igualdade, conformea democracia cristã.
"Foi o senhor quem fez esta casa e este pomar?"- Perguntou Marcos, curioso de tudo.
"Não, foi o sr. Oliver."
"Quem?" - Perguntei.
"Sr. Oliver, o missionário americano que lutou na segunda guerra."
"Onde está?" - Marcos olhou pelo terreno.
"Está enterrado próximo ao casarão dos meninos. Lá onde tem dois túmulos de duas crianças, filhas de missionários, que morreram no mesmo ano que chegaram aqui, acho que em 1923. Morreram novas, com dois e cinco anos."
"É uma pena. A morte de uma criança é algo muito sofrível para os pais e também para os amigos. Quando está velho, doente, sofrendo, a morte não causa tanto impacto." - Disse Marcos com sua sabedoria de vida.
"E porque ele fez este lugar tão bonito tão longe da casa das pessoas?" - Quis saber.
"Ele não gostava que mulheres por perto, nunca uma mulher entrou nessa casa, nesse pomar."
"Nunca?"
"Nunca."
Meu amigo me olhou como se dissesse que o missionário talvez fosse homossexual.
"Porque essa proibição?"
"O que ele me contou foi que quando os EUA entrou na Segunda Guerra,  na época tinha uma noiva e amava muito a sua noiva. Não puderam casar devido a convoção rápida para lutar na Europa. O senhor Oliver fez um pacto com sua noiva, se casariam quando voltasse da guerra. Lutou em várias batalhas. Libertou os europeus dos nazistas. Durante a guerra escrevia cartas para a noiva, ela respondia. Escrevia e ela respondia.  Mas antes de voltar da guerra ela escrevia menos. Achava que era devido ao longo tempo se correspondendo por cartas. Chegou da guerra, ansioso para casar com sua amada, com a mulher que sonhara viver junto até envelhecer e que por ela mantera vivo, casto, um amor imaculado durante toda guerra. Na casa da noiva descobriu que sua amada havia casado com outro durante a guerra e tinha tido uma filha. Para não perder a cabeça ou  morrer, literalmente de amor, veio para esta missão. Veio para o colégio, tinha amigos, parentes que eram pastores-professores aqui. Pediu permissão para construir essa casa no meio da mata. Deixaram. Fez a casa, a oficina, conhecia muito de mecânica, deu aulas durante muitos anos de mecânica de carros. Lecionou na escola dominical, Deu aulas de educação física. Fez este jardim e uma das normas era nenhuma mulher entraria aqui. Nunca entrou. Deu aulas para elas na oficina ao lado, mas mulher nenhuma entrava no jardim, nem para beber água. Mas nos últimos anos de vida, quis casar, saber como era a vida com uma mulher. Mas estava velho, tinha fechado o coração para todas as mulheres que desejaram ter um relacionamento com ele e não foram poucas: alunas, professoras solteiras, viúvas. Disse não a todas e na velhice elas disseram, não.O amor despertou tarde. Morreu só. Eu fui companhia dele, a pedido do diretor, nos últimos anos de vida. Ele as vezes ficava triste, deixou de ir a igreja, não lecionou mais na escola dominical. Passava os dias na chácara: uma manhã colhia o mel e limpava as colméias, passava o dia inteiro sem comer limpando toda chácara, comia pouco, era um homenzarrão magro e tímido.
Uma manhã não levantou para fazer o café, eu fiz, o chamei, mas ele não veio. Chamei novamente, ele não veio. Fui lá  e ele parecia assustado olhando para o teto. Estava morto. Nem me chamou para fazer companhia nos seus últimos momentos.
"Quando ele morreu?" - Perguntei.
"No inverno do ano passado. Em julho."
Parou por uns instantes, coou o café, pôs nas canequinhas, nos serviu e continuou:

"O  diretor me pediu que tomasse conta da  chácara. E é o que tenho feito. Do jeito que seu Oliver deixou eu mantenho."
"Mulher agora entra?" - Questionou Marcos.
"Não, mulher não entra. O sr. Oliver morreu mas sua palavra ainda permanece."
"O senhor  não quis casar, senhor João?"
"Eu sou donzelo. Escolhi viver donzelo."
Comemos o milho, tomamos mais café e nos despedimos do senhor ou servo João.
No caminho perguntei ao meu amigo:
"Acredita que o velho é donzelo?"
"Acredito."
"Duvido."
Na janta, conversando com um dos professores mais velhos da escola, contamos o acontecido e  ele confirmou tudo que o velho nos disse e acrescentou um dado.
"O senhor João nasceu na Bahia de Gabriela Cravo e Canela."

Meu encontro sangrento com CS Lewis

Foi num lugar como poucos. Era uma casa na colina na ilha de Santa Cruz, litoral de Pernambuco.
A casa em estilo colonial, tinha uma sala sob a entrada no jardim. Das poltronas podiamos ver os carros entrando na garagem, pelos grossos vidros no teto.
Na entrada principal, outra sala, enorme, sobre ela ficava um sotão, para o caso das visistas ocuparem os seis quartos. Dali se podia ver, através dos vidros, o mar verde claro, como olhos de mulher: o canal, as jangadas como que colocadas por Guliver, ao fundo: o forte de Itamaracá. No horizonte a amplidão azul com nuvens claras como lã.
Eu era um adolescente de 18 anos, religioso, cheio de reticências, com uma consciência amarrada por culpas e a tábua da lei no coração. Vivia um ascetismo, um estoicismo evangélico que era a glória da minha religião. Não concebia que um cristão comprasse comida no domingo, bebesse, fumasse, dançasse, olhasse com desejo a mulher bonita da praia, nem da igreja, nem se masturbar dia nenhum da semana, etc. Um cordeiro macho, branco, sem manchas, pronto para o abate, ser sacrificado no altar da religião dos homens legalistas. Do Cristo dos evangelhos que abominava religião e a hipocrisia dos líderes religiosos eu nada conhecia. O Jesus que eu conhecia era só o que sofreu na Cruz, mas nada do que perdoava a adúltera ou falava com a Samarita ou aquele que se deixava batizar com perfume por uma prostituta.
No grupo havia uma missionária holandesa, não lembro seu nome, era um anjo. Era delas os livros de CS Lewis no sotão sobre a sala. E havia uma razão deles estarem lá.
A missionária tinha uma amiga que estava aniversariando. Não sei quantos anos. Resolvemos fazer uma surpresa. Prepararíamos um bolo, compraríamos refrigerante, suco e pipoca. Dividimos as tarefas. As mulheres ficariam responsáveis pelo bolo, os homens pelo lanche e eu e outro colega, apelidado de Misericórdia, fomos encarregados de colocar numa caixa de papelão uma caixinha com um cordão de prata, presente da missionária. Uma coisa linda.
A holandesa disse que havia caixa, jornais, revistas velhas no sótão, só não utilizássemos os livros. Claro.
E tesoura, perguntou o Misericórdia. A missionária, disse que não tinha, que poderíamos usar facas, se quisessémos.
Subimos ao sotão, encontramos o material. E também vimos espuma. Decidimos usá-la, afinal a caixa era grande, para uma caixinha com o colar, tão pequena.
Começamos a rasgar jornais, revistas velhas e cortar espuma. Eu cortava com dificuldade. Devido minha curiosidade olhava a pilha de livros num canto, e para aumentar a curiosidade, estavam com a capa para baixo. Porque? Quando acabasse olharia a capa dos livros, pensei comigo.
Já tinha lido vários livros de Lewis: As Crônicas de Nárnia, O Grande Abismo, Perelandra, Os Quatro Amores (gostei demais), mas tinha lido com olhar puritano, não compreendi para além do significado do vocabulário do meu contexto religioso.
Ficamos meia hora rasgando jornais e revistas, Carlos desceu para ver se arrumava uma tesoura, enquanto eu cortava a espuma com a faca de pão. O trabalho dava pouco resultado. A espuma resistia. A curiosidade pelos livros cada vez maior.
Sentei perto da pilha de livros, juntei os pedaços de espuma que já cortara, continuei cortando, de tanto olhar para as lombadas dos livros, a maioria em outros idiomas, meus olhos avistaram o nome do autor do ultimo livro da pilha: CS Lewis. E estava em francês. A foto, para meu escândalo, Lewis acendia um charuto, parecia que uma granada tinha atingido seu rosto, o corte da faca foi certeiro no meu dedo. Ainda bem que não estava muito afiada. O sangue minou, abundante. Tentei estancar o sangue com a outra mão, mas o sangue parecia sair como um cano de água quebrado. Coloquei uma espuma em cima. Logo o amarelo avermelhou. Carlos subiu, olhou minha cara de escândalo, não era desespero, era escândalo. Viu o sangue.
- Misericórdia. O que foi isso?
- Cortei com a faca.
- Deixa eu ver se as mulheres tem um pano.
Desceu e logo subiu a missionária com uma caixa de primeiros socorros.
- O Carlos disse que cortou com a faca.
- É.
- Vamos lavar na torneira.
Havia um banheiro ao lado das revistas.
Lavamos.
- Não foi um corte profundo, mas comprido. Vou colocar remédio e fazer um curativo com ponto falso.
Mais uma vez. Lavou. Limpou e fez o curativo.
Agradeci. Estava feliz. Uma porta se abriu em algum sotão da minha mente ou alma.
Continuamos o serviço. A espuma com sangue foi usada na caixa, a aniversariante achou que era tinta.
Naquela tarde. A minha religião tinha se escandalizado. No primeiro momento eu ficara escandalizado com Lewis. Depois, pensando em tudo que tinha lido, eu percebi que tinha ficado escandalizado era com minha religião. Ela não era o Monte Horebe que eu imaginava, Lewis é que era, e sem sandálias.