Eu e um amigo começamos a trabalhar como professores num colégio agricola, em Chapada dos Guimarães, no início da década de 90. A escola tinha quase mil hectares, uma parte era reserva ambiental.
Uma tarde, após as aulas da manhã, andávamos conhecendo a escola. Passamos por um monjolinho de ferro, contrastava com os tijolos avermelhados do casarão dos estudantes; contornamos a esquerda e vimos a piscina rústica, de cimento grosso, mergulho de cabeça nem pensar. Do outro lado da estrada, a represa de água para abastecer a escola. Mata. Terra vermelha. O que viemos fazer aqui? Kierkegaarden. Camus. Guimarães Rosa: "Amigo é só isto, alguém com quem gostamos de conversar..."
A casa de Kazuco, uma descendente japonesa, ficava a esqueda e mata antes e depois.
" O marido de Kazuco disse que nessa represa (que havíamos passsado) tem muitas rãs, os alunos vem à noite pega-las usando lanterna."
"Rã frita é uma delícia." - Falei.
"Precisamos descobrir como se pega."
"Acho que usam um tridente de ferro. Jogam a lanterna nos olhos do bicho, ele fica meio cego e aí arremessam o tridente nas costas delas. Batata. Não falha."
E continuavamos andando em direção a cidade na estrada velha e abandonada. A rota 66 de Chapada dos Guimarães. A estrada por onde passou a Coluna Prestes no tempo do tenentismo. Olhava os campos extensos e ralos do lado direito da estrada. Era ali que os cavaleiros de Prestes acamparam. Passaram alguns dias descansando da longa marcha.
Como uma estrada tinha, praticamente, separado matas tão singulares? Era densa floresta amazônica, de um lado e a vegetação de Serrado, do outro. Na parte do cerrado, via uma concentração de árvores baixas, com alguns pés de buritis, onde diziam que ficava uma nascente.
Passamos por um córrego que atravessava a estrada. Não sabia se era permanente ou produto das intensas chuvas do verão.
Um pouco a frente, no meio da mata que achavamos fechada, difícil de entrar até para uma caçada de perdiz, vimos uma estrada, abandonada, a mata tomava conta dela. Entramos pela estrada, não fomos mais que vinte metros a frente, vimos uma coisa surreal, em plena mata, de árvores altas: um jardim. O lugar era fechado por uma cerca de arames e na parte baixa, uma saia de latas de óleo, formando uma barreira para animais, as linhas de arames estavam tão próximas que o dono gastou o triplo do que seria necessário para um cercado seguro. Havia ao lado do portão, duas barras de ferro, uma grande e pesada e outra pequena, mais leve. Bater a pequena na grande era a campainha. Batemos e esperamos. Ninguém apareceu. Batemos e esperamos. E nada. Observamos que havia uma casa de um amarelo, semelhante as flores de carvalho do sul dos EUA. Mas o que nos impressionava eram os pés de mexirica carregados, com frutas enormes e maduras, pés de manga, laranja bahia, laranja lima, lima, limão, pés de abacate (com frutas caídas), mamões, pés de abóboras, pés de chuchu subindo pelo telhado da casa, pés de pimenta malagueta, etc.Tudo produzindo a toda. Fiquei pasmo, deramos em algum lugar mágico. As abelhas voavam em grande zurrada e não se importavam conosco, mergulhavam em mangas maduras caídas no chão. E se embriagavam com o doce das frutas.
Achando estar abandonado, entramos, viramos crianças, pegamos umas mixiricas. Ao mesmo tempo olhavamos em volta para ver as outras novidades. Duas crianças num pomar. Farra de sabores.
Lá pela decima fruta, ouvimos um:
"Opâ".
Olhamos em volta e não vimos ninguém.
"Boa tarde." - Respondemos sem ver quem falara.
Um homem franzino, baixo, trazia um carrinho de madeira com espigas de milho e ferramentas. Vestia calça tergal, camisa branca, surrada, cabelos brancos, olhava para o chão. Devia ser de ira.
"O que vocês estão fazendo?"
"Bem achamos que...que o lugar estava abandonado e entramos para conhecer." - Marcos justificou nosso crime apelando para o desconhecimento.
"E pegar frutas sem autorização?"
"A gente bateu na campainha, senhor, e ninguém veio nos atender." - Respondi.
"Quem são os senhores?"
"Professores. Os novos professores deste ano."
"Deviam dar o exemplo." - Bateu o prego da ética em nossas mãos sujas de caldo de tangerina.
"Mas a gente, chamou várias vezes e não apareceu ninguém, desculpe, mas se soubessemos que o senhor estava aqui, não teríamos entrado sem permissão." - Disse meu amigo tentando convencer o velho.
"É eu não estava mesmo aqui, estava no milharal da escola trabalhando."
Nos entreolhamos aliviados. Acho que se convenceu.
"Se são professores da escola, vamos entrar para tomar café comigo." - O tempo e o humor do homem já tinha mudado. Mudou a atmosfera. Atirei o resto da tangerina na direção da mata.
Na casa ao lado da oficina, carcaças de carros antigos, um ford velhíssimo, um trator, veículos de mais de quarenta anos. Na parede uma coleção de chaves, ferramentas, tudo bem organizado e abaixo delas a descrição das mesmas. Estávamos impressionados com aquela organização dos objetos, outra surpresa, depois de encontrar um jardim no meio da mata. O interior da casa era singelo: sala com um sofá e uma cristaleira, com algumas louças; quarto com duas camas de solteiro; cozinha com mesa simples, um fogão a lenha num canto, janelas para toda extensão do jardim. Não havia eletrodomésticos: não vi geladeira, televisão, só um rádio para ouvir músicas sertanejas.
Tudo era manual, mesmo tendo eletricidade no local.
O velho abriu a torneira que trazia água por meiode uma calha de bambu, encheu um bule de água, numa outra panela com água e um punhado de sal colocou as espigas de milho, pôs na chapa do fogão, acrescentou dois pedaços secos de lenha para alimentar o fogo.
"Como é o nome dos senhores?" - Perguntou o homem.
"Rogério." - Respondi
" Marcos." - Nome fictício do meu amigo, na época, hoje, não temos a mesma amizade. O homem se apresentou:
"João, seu servo." - Aquilo foi chocante, parecia uma expressão bíblica, o homem adquiriu uma humildade incomensurada com aquela expressão: "seu servo", no singular. Servo meu ou do meu amigo? Pela expressão de sublimidade, pureza, sinceridade, o aço que usamos no dia a dia com para nos defender do mundo, derreteu-se.
"Que é isso? ninguém é servo de ninguém, se formos servos, seremos só do Altíssimo." - Busquei afirmar nossa igualdade, conformea democracia cristã.
"Foi o senhor quem fez esta casa e este pomar?"- Perguntou Marcos, curioso de tudo.
"Não, foi o sr. Oliver."
"Quem?" - Perguntei.
"Sr. Oliver, o missionário americano que lutou na segunda guerra."
"Onde está?" - Marcos olhou pelo terreno.
"Está enterrado próximo ao casarão dos meninos. Lá onde tem dois túmulos de duas crianças, filhas de missionários, que morreram no mesmo ano que chegaram aqui, acho que em 1923. Morreram novas, com dois e cinco anos."
"É uma pena. A morte de uma criança é algo muito sofrível para os pais e também para os amigos. Quando está velho, doente, sofrendo, a morte não causa tanto impacto." - Disse Marcos com sua sabedoria de vida.
"E porque ele fez este lugar tão bonito tão longe da casa das pessoas?" - Quis saber.
"Ele não gostava que mulheres por perto, nunca uma mulher entrou nessa casa, nesse pomar."
"Nunca?"
"Nunca."
Meu amigo me olhou como se dissesse que o missionário talvez fosse homossexual.
"Porque essa proibição?"
"O que ele me contou foi que quando os EUA entrou na Segunda Guerra, na época tinha uma noiva e amava muito a sua noiva. Não puderam casar devido a convoção rápida para lutar na Europa. O senhor Oliver fez um pacto com sua noiva, se casariam quando voltasse da guerra. Lutou em várias batalhas. Libertou os europeus dos nazistas. Durante a guerra escrevia cartas para a noiva, ela respondia. Escrevia e ela respondia. Mas antes de voltar da guerra ela escrevia menos. Achava que era devido ao longo tempo se correspondendo por cartas. Chegou da guerra, ansioso para casar com sua amada, com a mulher que sonhara viver junto até envelhecer e que por ela mantera vivo, casto, um amor imaculado durante toda guerra. Na casa da noiva descobriu que sua amada havia casado com outro durante a guerra e tinha tido uma filha. Para não perder a cabeça ou morrer, literalmente de amor, veio para esta missão. Veio para o colégio, tinha amigos, parentes que eram pastores-professores aqui. Pediu permissão para construir essa casa no meio da mata. Deixaram. Fez a casa, a oficina, conhecia muito de mecânica, deu aulas durante muitos anos de mecânica de carros. Lecionou na escola dominical, Deu aulas de educação física. Fez este jardim e uma das normas era nenhuma mulher entraria aqui. Nunca entrou. Deu aulas para elas na oficina ao lado, mas mulher nenhuma entrava no jardim, nem para beber água. Mas nos últimos anos de vida, quis casar, saber como era a vida com uma mulher. Mas estava velho, tinha fechado o coração para todas as mulheres que desejaram ter um relacionamento com ele e não foram poucas: alunas, professoras solteiras, viúvas. Disse não a todas e na velhice elas disseram, não.O amor despertou tarde. Morreu só. Eu fui companhia dele, a pedido do diretor, nos últimos anos de vida. Ele as vezes ficava triste, deixou de ir a igreja, não lecionou mais na escola dominical. Passava os dias na chácara: uma manhã colhia o mel e limpava as colméias, passava o dia inteiro sem comer limpando toda chácara, comia pouco, era um homenzarrão magro e tímido.
Uma manhã não levantou para fazer o café, eu fiz, o chamei, mas ele não veio. Chamei novamente, ele não veio. Fui lá e ele parecia assustado olhando para o teto. Estava morto. Nem me chamou para fazer companhia nos seus últimos momentos.
"Quando ele morreu?" - Perguntei.
"No inverno do ano passado. Em julho."
Parou por uns instantes, coou o café, pôs nas canequinhas, nos serviu e continuou:
"O diretor me pediu que tomasse conta da chácara. E é o que tenho feito. Do jeito que seu Oliver deixou eu mantenho."
"Mulher agora entra?" - Questionou Marcos.
"Não, mulher não entra. O sr. Oliver morreu mas sua palavra ainda permanece."
"O senhor não quis casar, senhor João?"
"Eu sou donzelo. Escolhi viver donzelo."
Comemos o milho, tomamos mais café e nos despedimos do senhor ou servo João.
No caminho perguntei ao meu amigo:
"Acredita que o velho é donzelo?"
"Acredito."
"Duvido."
Na janta, conversando com um dos professores mais velhos da escola, contamos o acontecido e ele confirmou tudo que o velho nos disse e acrescentou um dado.
"O senhor João nasceu na Bahia de Gabriela Cravo e Canela."