Tem gente que tem orgulho do clero, de líderes eclesiásticos famosos, dos grande "homens de Deus". Eu, ao contrário, me orgulho dos leigos. Tenho orgulho do meu avô. O bom e velho Manoel. Ele foi um ótimo avô, eu, péssimo neto. Vivia roubando frutas no pomar do seu quintal sem sua permissão, ou mexendo nos seus livros na biblioteca, que ele tinha tanto zêlo, ou profanando seu sagrado silêncio correndo atrás do Peri (seu cachorro pequenez). Peri era um tanto parecido com ele. Não gostava de chacotas, quando ficava sobre o barranco esperando eu jogar o pedaço de pau e eu ameaçando jogar não jogando,depois rindo de tê-lo enganado, Peri mostrava os dentes e latia, como querendo dizer: joga logo essa droga!
Bons tempos, antes de encontrar algumas pessoas no céu, espero encontrar primeiro o Peri.
No quintal sagrado da sua casa, quintal exageradamente varido e limpo, pela vassoura de mato da minha avó, nasceu a igreja presbiteriana do bairro. Em Campo Grande no início da década de 60, havia a igreja católica e mais três igrejas protestantes. Foi ali debaixo da sombra do coqueiro e abacateiro que nasceu aquela comunidade de calvinistas: gente pobre, mas honesta; gente simples mas honrada; gente simpática e admirada pela maioria esmagadora de honrados católicos. Hoje o bairro é outro, como é outro o meio evangélico.
Quando seu vizinho, o senhor Eutimio, se converteu, eles juntaram uma coisa em comum além da amizade - a música. Meu avó tocava vários instrumentos: clarinete, flauta transversal, cavaquinho, bandolin, violão, sanfona. O senhor Eutimio também mas gostava do Sax. Os dois se reuniam, depois da janta, na alfaiataria do meu avô e ali eles, fechado naquela casa de madeira, como uma caixa acústica, onde havia uma norma de não incomodar, tocavam as músicas do hinário da igreja: Quando os santos marcharem (que o Tears for Fears adoravam), Maravilhosa Graça (a famosa Amazing Grace), O Mercado Está Vazio (mais apocalíptica) e várias outras com melodia que arrebatavam. Sempre havia os arranjos: o Sax do senhor Eutimio deixava se levar pelo Espírito e chegava ao trono do rei. Noutro momento era o clarinete levando os anjos ao sétimo céu.
Depois se despediam com solenes "boa noite" até voltarem a se reunir quando a música e o Senhor os chamava para se alegrar. Aquilo é que era um culto sagrado. Muitos se tornaram músicos, crentes, somente ouvindo aquelas músicas. Meu avô evangelizava a toa, a música e sua vida falava mais alto que suas sábias palavras.
Eu era apenas um ouvinte da música celestial daqueles dois titãs.
Um moleque que não se perdeu, porque perdeu-se na música de Vô Manoel.
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