Meu encontro sangrento com CS Lewis

Foi num lugar como poucos. Era uma casa na colina na ilha de Santa Cruz, litoral de Pernambuco.
A casa em estilo colonial, tinha uma sala sob a entrada no jardim. Das poltronas podiamos ver os carros entrando na garagem, pelos grossos vidros no teto.
Na entrada principal, outra sala, enorme, sobre ela ficava um sotão, para o caso das visistas ocuparem os seis quartos. Dali se podia ver, através dos vidros, o mar verde claro, como olhos de mulher: o canal, as jangadas como que colocadas por Guliver, ao fundo: o forte de Itamaracá. No horizonte a amplidão azul com nuvens claras como lã.
Eu era um adolescente de 18 anos, religioso, cheio de reticências, com uma consciência amarrada por culpas e a tábua da lei no coração. Vivia um ascetismo, um estoicismo evangélico que era a glória da minha religião. Não concebia que um cristão comprasse comida no domingo, bebesse, fumasse, dançasse, olhasse com desejo a mulher bonita da praia, nem da igreja, nem se masturbar dia nenhum da semana, etc. Um cordeiro macho, branco, sem manchas, pronto para o abate, ser sacrificado no altar da religião dos homens legalistas. Do Cristo dos evangelhos que abominava religião e a hipocrisia dos líderes religiosos eu nada conhecia. O Jesus que eu conhecia era só o que sofreu na Cruz, mas nada do que perdoava a adúltera ou falava com a Samarita ou aquele que se deixava batizar com perfume por uma prostituta.
No grupo havia uma missionária holandesa, não lembro seu nome, era um anjo. Era delas os livros de CS Lewis no sotão sobre a sala. E havia uma razão deles estarem lá.
A missionária tinha uma amiga que estava aniversariando. Não sei quantos anos. Resolvemos fazer uma surpresa. Prepararíamos um bolo, compraríamos refrigerante, suco e pipoca. Dividimos as tarefas. As mulheres ficariam responsáveis pelo bolo, os homens pelo lanche e eu e outro colega, apelidado de Misericórdia, fomos encarregados de colocar numa caixa de papelão uma caixinha com um cordão de prata, presente da missionária. Uma coisa linda.
A holandesa disse que havia caixa, jornais, revistas velhas no sótão, só não utilizássemos os livros. Claro.
E tesoura, perguntou o Misericórdia. A missionária, disse que não tinha, que poderíamos usar facas, se quisessémos.
Subimos ao sotão, encontramos o material. E também vimos espuma. Decidimos usá-la, afinal a caixa era grande, para uma caixinha com o colar, tão pequena.
Começamos a rasgar jornais, revistas velhas e cortar espuma. Eu cortava com dificuldade. Devido minha curiosidade olhava a pilha de livros num canto, e para aumentar a curiosidade, estavam com a capa para baixo. Porque? Quando acabasse olharia a capa dos livros, pensei comigo.
Já tinha lido vários livros de Lewis: As Crônicas de Nárnia, O Grande Abismo, Perelandra, Os Quatro Amores (gostei demais), mas tinha lido com olhar puritano, não compreendi para além do significado do vocabulário do meu contexto religioso.
Ficamos meia hora rasgando jornais e revistas, Carlos desceu para ver se arrumava uma tesoura, enquanto eu cortava a espuma com a faca de pão. O trabalho dava pouco resultado. A espuma resistia. A curiosidade pelos livros cada vez maior.
Sentei perto da pilha de livros, juntei os pedaços de espuma que já cortara, continuei cortando, de tanto olhar para as lombadas dos livros, a maioria em outros idiomas, meus olhos avistaram o nome do autor do ultimo livro da pilha: CS Lewis. E estava em francês. A foto, para meu escândalo, Lewis acendia um charuto, parecia que uma granada tinha atingido seu rosto, o corte da faca foi certeiro no meu dedo. Ainda bem que não estava muito afiada. O sangue minou, abundante. Tentei estancar o sangue com a outra mão, mas o sangue parecia sair como um cano de água quebrado. Coloquei uma espuma em cima. Logo o amarelo avermelhou. Carlos subiu, olhou minha cara de escândalo, não era desespero, era escândalo. Viu o sangue.
- Misericórdia. O que foi isso?
- Cortei com a faca.
- Deixa eu ver se as mulheres tem um pano.
Desceu e logo subiu a missionária com uma caixa de primeiros socorros.
- O Carlos disse que cortou com a faca.
- É.
- Vamos lavar na torneira.
Havia um banheiro ao lado das revistas.
Lavamos.
- Não foi um corte profundo, mas comprido. Vou colocar remédio e fazer um curativo com ponto falso.
Mais uma vez. Lavou. Limpou e fez o curativo.
Agradeci. Estava feliz. Uma porta se abriu em algum sotão da minha mente ou alma.
Continuamos o serviço. A espuma com sangue foi usada na caixa, a aniversariante achou que era tinta.
Naquela tarde. A minha religião tinha se escandalizado. No primeiro momento eu ficara escandalizado com Lewis. Depois, pensando em tudo que tinha lido, eu percebi que tinha ficado escandalizado era com minha religião. Ela não era o Monte Horebe que eu imaginava, Lewis é que era, e sem sandálias.

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